O velho sem conselhos, de joelhos, de partida, carrega com certeza todo o peso da sua vida. Então eu lhe pergunto pelo amor. A vida inteira diz que se guardou do carnaval, da brincadeira que ele não brincou. Me diga agora o que é que eu digo ao povo, o que é que tem de novo. Pra deixar, nada. Só a caminhada, longa, pra nenhum lugar.
O velho de partida deixa a vida sem saudades, sem dívidas, sem saldo, sem rival ou amizade. Então eu lhe pergunto pelo amor. Ele me diz que sempre se escondeu, não se comprometeu nem nunca se entregou. E diga agora o que é que eu digo ao povo, o que é que tem de novo… Pra deixar, nada. E eu vejo a triste estrada onde um dia eu vou parar.
O velho vai-se agora, vai-se embora sem bagagem. Não se sabe pra que veio. Foi passeio, foi Passagem. Então eu lhe pergunto pelo amor… Ele me é franco: mostra um verso manco de um caderno em branco que já se fechou. Me diga agora o que é que eu digo ao povo, o que é que tem de novo. Pra deixar, não. Foi tudo escrito em vão, e eu lhe peço perdão, mas não vou lastimar…
— O Velho, Chico Buarque
(via pequenacolombina)
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